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Qualidade de dados: por que seu relatório não bate

Qualidade de dados na empresa: por que vendas, financeiro e operação chegam a números diferentes e um roteiro prático para ter indicadores oficiais confiáveis.

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Neste artigo

A reunião de resultados começa e, em dez minutos, deixa de ser sobre resultado. O comercial apresenta um faturamento do mês, o financeiro traz outro, e a operação diz que entregou mais pedidos do que os dois registram. A próxima hora vai para descobrir qual planilha está certa, e a decisão que motivou a reunião fica para a semana seguinte.

Ninguém está mentindo. Cada área puxou o número de um lugar diferente, com um filtro diferente, num momento diferente. O problema não é o relatório: é o dado que chega até ele. Qualidade de dados na empresa é justamente isso: garantir que cada número tenha uma definição única, venha de cadastros limpos e atravesse as integrações sem se perder ou se duplicar.

Este texto explica de onde vêm as divergências, como separar o que é erro de cadastro do que é erro de definição, e qual roteiro usamos para que a empresa tenha um número oficial por indicador, com dono, regra escrita e verificação automática.

O sintoma: cada área tem um número diferente

Qualidade de dados é a capacidade de confiar no número sem precisar conferir à mão. Quando ela falta, os sinais são parecidos em qualquer empresa:

  • Relatórios paralelos. Cada área mantém a própria planilha "porque a do sistema não bate".
  • Fechamento que demora. O mês só fecha depois de alguém cruzar exportações e ajustar diferenças.
  • Números que mudam depois de publicados. O faturamento de março apresentado em abril não é o mesmo que aparece em maio.
  • Painel que ninguém usa. O painel de BI existe, mas a diretoria pede o número por mensagem para quem "sabe de onde tirar".
  • Discussão sobre o dado, não sobre a decisão. A pergunta deixa de ser "por que caímos?" e vira "caímos mesmo?".

Quase sempre a divergência tem uma de três causas, ou uma combinação delas: definições diferentes, cadastros sujos e integrações que perdem ou duplicam registros. Cada uma pede um remédio diferente, e tratar uma como se fosse outra é o motivo de muitos projetos de BI frustrarem.

Definições: o que é venda, cliente ativo, entrega no prazo

A causa mais comum, e a mais subestimada, nem é erro. São duas áreas medindo coisas diferentes com o mesmo nome.

Veja quantas respostas legítimas existem para "quanto vendemos em março":

Pergunta Comercial costuma contar Financeiro costuma contar Operação costuma contar
O que é venda? Pedido fechado Nota fiscal emitida Pedido expedido
Em que data entra? Data do pedido Data de emissão da nota Data de saída
Valor bruto ou líquido? Bruto, com frete Líquido de impostos e devoluções Quantidade, não valor
Pedido cancelado depois? Às vezes continua Sai via cancelamento ou devolução Nunca saiu

As três respostas estão corretas para o propósito de cada área. O erro é colocá-las lado a lado num slide com o mesmo título.

O mesmo acontece com outros indicadores que parecem óbvios:

  • Cliente ativo. Comprou nos últimos 90 dias? Tem contrato vigente? Tem cadastro sem bloqueio? Matriz e filiais com CNPJs diferentes contam como um ou como vários?
  • Entrega no prazo. Prazo prometido ao cliente ou prazo da transportadora? Conta dia útil ou corrido? Entrega parcial conta como no prazo?
  • Ticket médio. Por pedido, por nota ou por cliente? Com ou sem frete?
  • Margem. Sobre o custo médio do estoque, o custo da última compra ou o custo padrão?

A solução não é escolher uma área vencedora. É dar nomes diferentes a coisas diferentes ("pedidos fechados", "faturamento líquido", "pedidos expedidos") e decidir qual delas é o número oficial para cada decisão.

Cadastros sujos e duplicados

A segunda causa está na origem: o cadastro. Um mesmo cliente aparece três vezes, com a razão social escrita de formas diferentes, um CNPJ digitado com erro e um endereço antigo. Um produto existe como "PARAF 6MM INOX" e como "Parafuso inox 6 mm", com códigos diferentes e o mesmo item na prateleira.

Os efeitos aparecem em todo relatório que agrupa por cliente ou produto:

  • Ranking de clientes errado. O maior cliente da empresa aparece em quinto lugar porque o volume dele está dividido em três cadastros.
  • Estoque inconsistente. Entrada lançada num código, saída em outro; um fica negativo e o outro parado.
  • Comissão e meta contestadas. Quando o cadastro diz que o cliente é de um vendedor e o pedido diz que é de outro, o fechamento da comissão vira negociação caso a caso.

Cadastro sujo raramente é preguiça. Ele nasce de formulários que aceitam qualquer coisa, de várias pessoas cadastrando sem regra comum e de sistemas diferentes mantendo seus próprios cadastros. Por isso, limpar uma vez não resolve: se a porta continua aberta, a sujeira volta em poucos meses.

A limpeza pontual ainda vale a pena, desde que venha acompanhada de duas coisas: um critério de unificação (por exemplo, CNPJ ou CPF como chave de cliente, código interno único como chave de produto) e um registro do que foi unificado, para que os relatórios históricos possam ser refeitos com os cadastros já consolidados.

Integrações que perdem ou duplicam registros

A terceira causa é técnica. O dado nasce certo num sistema e chega errado no outro.

Os padrões mais frequentes:

  • Registro perdido. A integração roda de hora em hora, falha numa madrugada e ninguém percebe. Os pedidos daquela janela nunca chegaram ao ERP ou ao BI.
  • Registro duplicado. O sistema de origem reenvia uma mensagem porque não recebeu confirmação, e o destino grava duas vezes. O faturamento do dia aparece dobrado para alguns pedidos.
  • Atualização que não chega. O pedido foi cancelado na origem, mas o cancelamento não foi propagado. No relatório, ele continua vendido.
  • Fuso e data de corte. Um sistema grava em horário de Brasília, outro em UTC. Os pedidos das últimas horas do dia 31 caem no mês seguinte em um dos lados.
  • Conversão silenciosa. Unidade de medida, casas decimais ou código de status traduzidos de forma diferente entre os sistemas.

O que distingue uma integração confiável é ela ser idempotente (receber a mesma mensagem duas vezes tem o mesmo efeito que receber uma), registrar falhas com dono e ter conciliação periódica: comparar contagens e totais entre origem e destino e alertar quando divergem. Se os dados das várias fontes ainda são cruzados em planilha, vale ler como começar um data warehouse em empresa média, que é onde essa conciliação costuma morar.

Roteiro: como criar números oficiais confiáveis

Saber as causas ajuda a diagnosticar. Para resolver, o caminho que funciona segue esta ordem.

  1. Liste os indicadores que geram discussão. Não comece por todos. Comece pelos cinco a dez números que aparecem na reunião de resultados e que alguém já contestou.
  2. Rastreie a origem de cada versão. Para cada indicador, anote de onde cada área tira o número: sistema, relatório, filtro, data de corte. A maior parte das divergências se explica nesta etapa.
  3. Classifique a divergência. É definição (as áreas medem coisas diferentes), cadastro (o mesmo cliente ou produto aparece duplicado) ou integração (registros faltando, sobrando ou desatualizados)?
  4. Escreva a definição oficial. Nome, fórmula, fonte, data de referência, o que entra e o que sai. Se precisar de duas versões, dê nomes diferentes a elas.
  5. Corrija na origem, não no relatório. Ajuste manual na planilha resolve o mês e esconde o problema. A correção vai para o cadastro, para a integração ou para a regra de cálculo.
  6. Calcule em um só lugar. O número oficial é calculado uma vez, numa camada de dados central, e todos os painéis e relatórios leem dali.
  7. Ligue o monitoramento. Regras automáticas que verificam o dado todo dia e avisam quando algo sai do esperado.
  8. Desligue as versões paralelas. Só quando o número oficial bater de forma consistente com a conferência manual, as planilhas paralelas saem de cena.

A etapa 6 é onde muitos projetos de BI erram: cada painel recalcula o indicador com a própria fórmula, e o problema que existia nas planilhas passa a existir dentro da ferramenta de BI. A escolha da ferramenta pesa menos do que manter o cálculo centralizado, assunto que aprofundamos em dashboard sob medida ou Power BI.

Regras de validação na origem

O dado mais barato de corrigir é o que nunca entrou errado. Validar na origem significa que o sistema recusa, ou pelo menos alerta, antes de gravar.

Exemplos de regras que resolvem boa parte da sujeira:

  • Documento válido. CPF e CNPJ com dígito verificador conferido, e bloqueio de cadastro duplicado pelo mesmo documento.
  • Campos obrigatórios que importam. Segmento, cidade e vendedor responsável, se os relatórios agrupam por eles.
  • Listas fechadas em vez de texto livre. Motivo de cancelamento, tipo de cliente e status escolhidos de uma lista, não digitados.
  • Faixas plausíveis. Desconto acima do limite da alçada, peso zerado ou data de entrega anterior à do pedido geram alerta.
  • Consulta antes de criar. Ao cadastrar cliente ou produto, o sistema mostra registros parecidos antes de permitir um novo.

Quando o dado nasce em planilhas compartilhadas, nada disso existe: qualquer célula aceita qualquer coisa. Esse é um dos motivos mais fortes para substituir planilhas por um sistema nos processos que alimentam os indicadores principais.

Validação demais também atrapalha: se o formulário exige campos demais, a equipe inventa valores para passar. Proteja o que os relatórios usam e deixe o resto opcional.

Dono do dado e dicionário de indicadores

Tecnologia não resolve sozinha uma questão que é de responsabilidade. Cada dado importante precisa de um dono: uma pessoa ou área que decide a regra, aprova mudanças e responde quando algo diverge.

Uma divisão comum, como ponto de partida:

Dado Dono típico O que o dono decide
Cadastro de clientes Comercial ou cadastro central Critério de unificação, campos obrigatórios
Cadastro de produtos Compras, engenharia ou suprimentos Código, unidade, classificação
Faturamento e recebimentos Financeiro Regra de faturamento líquido, data de corte
Pedidos e entregas Operação ou logística O que é entrega no prazo, como tratar parciais
Metas e comissão Diretoria comercial Base de cálculo e exceções

O dono registra as regras num dicionário de indicadores: um documento simples, acessível a todos, com uma entrada por indicador. Cada entrada responde a perguntas objetivas:

  • Nome oficial e nomes que não devem ser usados para ele.
  • Fórmula em linguagem de negócio.
  • Fonte dos dados e data de referência.
  • O que entra e o que fica de fora (cancelamentos, devoluções, bonificações, transferências entre filiais).
  • Dono e data da última alteração da regra.

Quando a regra muda, por exemplo, quando devoluções passam a ser descontadas no mês da venda e não no mês da devolução, o dicionário registra a data da mudança. Isso evita a sensação de que "o sistema mudou o número do ano passado".

Se os relatórios usam dados pessoais de clientes ou colaboradores, o dicionário também é um bom lugar para indicar quem pode ver o quê. A LGPD (Lei 13.709/2018) se aplica aos dados usados em relatórios como a qualquer outro tratamento, e o desenho de acesso deve ser validado com o jurídico.

Monitoramento contínuo da qualidade

Corrigir uma vez é um projeto. Manter correto é rotina, e rotina precisa ser automática. Na prática, o monitoramento é um conjunto de verificações que rodam todo dia sobre os dados e avisam o dono quando algo sai do padrão.

O que verificar

  • Completude. Pedidos sem vendedor, clientes sem segmento, produtos sem custo.
  • Unicidade. Dois clientes com o mesmo documento, duas notas com a mesma chave.
  • Consistência entre sistemas. Total de pedidos faturados no ERP contra o total no BI, por dia.
  • Atualização. A carga de ontem chegou? Qual é o registro mais recente de cada fonte?
  • Plausibilidade. Faturamento do dia muito acima ou abaixo do histórico do mesmo dia da semana.

Como agir sobre o alerta

Alerta que chega para todo mundo não chega para ninguém. Cada verificação tem um dono, um canal (e-mail, mensagem, painel de pendências) e uma ação esperada. Vale também mostrar no próprio painel quando o dado de uma fonte está atrasado ou com pendência: um aviso de "atualizado até ontem às 18h" evita decisões tomadas sobre número incompleto.

Um indicador que ajuda a acompanhar a evolução é a quantidade de pendências abertas por tipo e por área. Se ela cai mês a mês, o trabalho na origem está funcionando. Se fica estável, alguém está corrigindo à mão o mesmo problema todos os dias.

Perguntas frequentes

O que é qualidade de dados em uma empresa?

Qualidade de dados é a capacidade de confiar num número sem precisar conferi-lo à mão. Na prática, significa que cada indicador tem uma definição única, vem de cadastros limpos e atravessa as integrações entre sistemas sem perder nem duplicar registros, com um dono responsável e verificações automáticas que avisam quando algo sai do padrão.

Comprar uma ferramenta de BI resolve relatórios que não batem?

Não, sozinha a ferramenta de BI não resolve. Se cada painel recalcula o indicador com a própria fórmula, a divergência que existia nas planilhas passa a existir dentro do BI. O que resolve é definir o número oficial, corrigir cadastros e integrações na origem e calcular cada indicador uma única vez, numa camada de dados central.

Por onde começar a arrumar os dados da empresa?

Comece pelos indicadores que geram discussão, não por todos. Escolha os cinco a dez números que aparecem na reunião de resultados e que alguém já contestou, rastreie de onde cada área tira a própria versão e classifique a divergência como problema de definição, de cadastro ou de integração antes de corrigir qualquer dado.

Limpar o cadastro de clientes uma vez resolve a duplicidade?

Não. Sem regras de validação na origem, a sujeira no cadastro de clientes volta em poucos meses. A limpeza pontual vale a pena quando vem acompanhada de um critério de unificação, como CNPJ ou CPF como chave de cliente, de um registro do que foi unificado e de bloqueios que impedem novos cadastros duplicados.

Por que o faturamento de um mês muda depois de fechado?

Geralmente por integração ou por mudança de regra. O faturamento de um mês fechado muda quando cancelamentos e devoluções chegam depois, quando registros perdidos são reprocessados ou quando a regra de cálculo foi alterada sem registro. Uma data de corte definida e um dicionário de indicadores com a data de cada mudança tornam essas alterações explicáveis.

Como a Pervian Tech trabalha dados confiáveis

Na Pervian Tech, esse trabalho começa por um diagnóstico gratuito: quais indicadores geram discussão hoje, de onde cada área tira o número e em que ponto as versões se separam. Com esse mapa, separamos o que é definição, o que é cadastro e o que é integração, e propomos a ordem de ataque.

A partir daí, o projeto é sob medida. Pode ser uma camada de dados central com os indicadores oficiais e a conciliação entre sistemas, regras de validação nos sistemas de origem, ajustes nas integrações para eliminar perdas e duplicidades ou o painel que consome tudo isso, como nos dashboards e BI sob medida. O desenho de onde cada dado nasce, onde é calculado e quem consome é uma decisão de arquitetura de software, e é por ela que começamos.

O cronograma segue fases (diagnóstico, primeiros indicadores oficiais, monitoramento, expansão) e é definido depois do diagnóstico, porque depende do número de sistemas e da situação dos cadastros. O investimento é sob consulta. Se a sua reunião de resultados ainda começa discutindo qual número está certo, conte como seus relatórios são montados hoje.

Qualidade de dadosIndicadoresBIGovernança de dadosServiço: Arquitetura de Software

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Cada projeto é desenhado sob medida para o seu processo, e o investimento é definido sob consulta depois de entendermos o contexto. O diagnóstico inicial não tem custo: descreva o cenário e respondemos em até um dia útil.

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